O procedimento é de risco?
A anestesia pediátrica é, sem dúvida, uma das maiores preocupações dos pais. Afinal, deixar seu filho na entrada do centro cirúrgico ou de uma clínica para realizar uma pequena cirurgia ou até mesmo um exame de imagem pode ser angustiante.
E essa preocupação não é completamente sem fundamento, afinal, crianças não são apenas adultos pequenos. As vias aéreas são menores, o sistema respiratório ainda está em desenvolvimento e, quanto menor a criança, maior pode ser o impacto de algumas complicações respiratórias durante a anestesia.
Por isso, antes de qualquer procedimento, o anestesista faz uma avaliação cuidadosa dos riscos e benefícios.
O anestesista será o “piloto”
É comum compararmos o trabalho do anestesista ao de um piloto de avião.
Antes de decolar, o piloto faz uma análise da segurança e avalia possíveis situações que podem tornar aquele voo menos seguro.
Na anestesia, fazemos algo parecido.
Na consulta pré-anestésica, uma pergunta que quase sempre aparece é:
“Seu filho está gripado? Teve tosse, coriza, febre ou outros sintomas respiratórios recentemente?”
Essa pergunta não é por acaso.
O escore COLDS é uma ferramenta de avaliação
Crianças com infecção respiratória atual ou recente apresentam maior risco de eventos respiratórios durante a anestesia, como laringoespasmo, broncoespasmo, dessaturação, apneia e necessidade de suporte respiratório.
É nesse contexto que pode ser utilizado o escore COLDS, uma ferramenta que ajuda o anestesista a organizar alguns dos principais fatores envolvidos nesse risco.
A sigla COLDS considera:
- C — Current symptoms: sintomas atuais;
- O — Onset: quando os sintomas começaram;
- L — Lung disease: presença de doença pulmonar, como asma;
- D — Device: tipo de dispositivo que será utilizado para manter a via aérea;
- S — Surgery: tipo de cirurgia, especialmente quando envolve a própria via aérea.

Quanto maior a pontuação, maior tende a ser o risco de eventos respiratórios. Importante: o COLDS não é um “semáforo” que determina sozinho se a cirurgia deve ou não acontecer.
Não existe um único número que obrigue o anestesista a cancelar um procedimento. A decisão depende da combinação de fatores da criança, do procedimento e do quadro respiratório.
Mas por que um simples resfriado interfere na anestesia?
Durante uma infecção respiratória, as vias aéreas ficam inflamadas e mais reativas.
Imagine que os brônquios e a região da laringe estejam mais “sensíveis” do que o habitual. Durante a anestesia, essa irritabilidade pode favorecer respostas exageradas à manipulação da via aérea e às secreções.
É daí que podem surgir complicações como o laringoespasmo, quando ocorre um fechamento importante das cordas vocais, ou o broncoespasmo, quando há contração dos brônquios.
E existe ainda outro ponto: a anestesia reduz os mecanismos naturais que mantêm a via aérea aberta e protegem os pulmões. Dependendo do procedimento, pode ser necessário utilizar dispositivos para auxiliar ou controlar a respiração.
Por isso, uma criança que está apenas “um pouquinho gripada” pode apresentar uma via aérea muito mais reativa durante a anestesia do que apresentaría em condições habituais.
E se isso acontecer?
O anestesista é justamente o profissional preparado para reconhecer e tratar essas situações.
Durante uma anestesia, a criança é continuamente monitorizada e a equipe permanece preparada para intervir caso apareçam alterações respiratórias. Existem estratégias e medicamentos específicos para tratar broncoespasmo, laringoespasmo e outras complicações.
Mas existe uma regra muito importante na medicina:
melhor do que tratar uma complicação é, quando possível, evitar que ela aconteça.
Por isso, quando uma cirurgia é eletiva, pode fazer sentido esperar a criança se recuperar.
Então uma criança gripada nunca pode ser anestesiada?
Uma coriza leve não significa automaticamente que a cirurgia será cancelada.
Por outro lado, sintomas como febre, prostração, tosse importante, secreção respiratória abundante, chiado no peito ou sinais de comprometimento das vias aéreas podem pesar bastante na decisão de adiar um procedimento eletivo.
Também são levados em consideração a idade da criança, doenças respiratórias prévias, prematuridade, exposição à fumaça, o tipo de cirurgia e a forma como a via aérea precisará ser manejada.
E há situações em que a cirurgia não pode esperar.
Uma cirurgia de urgência, por exemplo, precisa ser realizada mesmo diante de uma infecção respiratória. Nesse caso, a equipe avalia os riscos e adapta a estratégia anestésica para tornar o procedimento o mais seguro possível.
O mesmo raciocínio vale para alguns procedimentos que têm justamente o objetivo de melhorar a respiração da criança, como determinadas cirurgias otorrinolaringológicas. O risco de esperar também precisa ser considerado.
E os exames de imagem?
Essa questão também aparece bastante.
Tomografias e, principalmente, ressonâncias magnéticas podem exigir que a criança permaneça completamente imóvel durante o exame. Em crianças pequenas, isso frequentemente significa utilizar sedação ou anestesia.
Portanto, o fato de ser “apenas um exame” não significa que o risco anestésico deixe de existir.
Se o exame for eletivo e puder esperar, pode ser mais seguro realizá-lo quando a criança estiver recuperada. Se houver urgência, entretanto, o benefício de realizar o exame pode superar o risco aumentado da anestesia.
Quanto tempo é necessário esperar?
Essa é uma das perguntas mais difíceis de responder com um número único.
O risco respiratório é maior durante uma infecção ativa e nas primeiras semanas após o quadro. À medida que o tempo passa, a hiperreatividade das vias aéreas tende a diminuir.
Por isso, em casos selecionados, pode-se considerar um intervalo de pelo menos 1 a 2 semanas após a resolução dos sintomas, enquanto quadros mais importantes podem justificar uma espera maior. Em algumas crianças, especialmente quando existem outros fatores de risco, o anestesista pode recomendar um período ainda mais longo.
Ou seja: não é simplesmente “ficou duas semanas sem gripe, está liberado”.
O momento adequado depende da criança e do procedimento.
E se a cirurgia não puder esperar?
Quando um procedimento é necessário e a criança teve uma infecção respiratória recente, existem estratégias para reduzir o risco anestésico.
A equipe pode, por exemplo, escolher cuidadosamente a técnica de manejo da via aérea, utilizar medicamentos quando indicados e adaptar a anestesia às condições respiratórias daquela criança.
O objetivo não é esperar que o risco seja zero — isso praticamente nunca existe em medicina —, mas avaliar se o benefício de realizar o procedimento naquele momento compensa o risco adicional.
Como posso me informar melhor?
Na consulta pré-anestésica.
Conte ao anestesista todos os detalhes: quando começaram os sintomas, se houve febre, tosse, secreção, chiado, uso de medicamentos, atendimento médico e quando a criança voltou ao seu estado habitual.
Mesmo aquele resfriado que parece “já ter passado” é uma informação importante.
Não fique frustrado se o procedimento for adiado!
Quando o anestesista recomenda esperar mais alguns dias ou semanas, isso não significa que a anestesia seja perigosa ou que algo esteja necessariamente errado com seu filho.
Significa que, naquele momento, esperar pode ser a escolha mais segura.
Porque, quando falamos de anestesia pediátrica, segurança também significa saber quando é melhor não decolar ainda.

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